Thiago Pereira, da equipe do Alto-Falante, veio ao Bonnaroo por conta e gosto. Acompanhou junto a muitos dos shows e contribui com a cobertura com um texto de uma apresentação que gostou.
“Lucinda Williams é um nome pouco conhecido no Brasil, mas uma pequena instituição da música norte-americana. Espécie de musa às avessas do country, a cantora de 56 anos enforca o lado Amélia tão comum às intérpretes do gênero com noites dormidas sozinha em motéis de beira de estrada, letras raivosas contra homens frouxos e uma vitalidade musical notável espalhada em uma discografia irregular, mas repleta de pontos altos. Se Dolly Parton, ícone do gênero, acorda quatro horas antes do marido apenas para se maquiar para ele, Lucinda Williams é a mulher que manda o macho “fuck off” se ele não souber acender o cigarro dela com firmeza. Rock ´n´roll.
Tendo isso em mente, fica mais fácil de entender sua presença no Bonnaroo – ela é definitivamente um canal alternativo, uma outsider dentro do country. Quando encerrou seu show com a excelente versão de “It´s a Long Way To The Top”, do AC/DC (que encerra seu último álbum, “Little Honey”) ficou fácil de entender porque ela foi abraçada com todo calor pelo público presente na This Tent. Os que não optaram pela voz abençoada de Al Green no palco principal ou a inteligência musical do TV On The Radio no Which Stage ganharam um show que vai além do country e alcança o rock americano clássico, repleto de bons riffs de guitarra e solos reluzentes, fazendo jus a uma das maiores influências da moça, a Crazy Horse de Neil Young.
A base do repertório apresentado foi seu último álbum, “Little Honey” lançado no ano passado, com as boas” Honey Bee”, “Little Rock Star” e especialmente a dobradinha “Tears Of Joy” e “Jailhouse Tears”, arrepiando geral, esta última se arrastando num longo blues. Sobrou espaço para alguns clássicos de seu repertório, com a balada “Drunken Angel” e “Bleeding Fingers”, ganhando coro do público. Aliás, a audiência de Lucinda Williams é um show a parte-de tiozinhos com cabelo à Willie Nelson, longos e trançados, até garotos tatuados, incluindo vovós grisalhas e quarentonas enxutas, loiras e de cerveja gelada nas mãos. Tinha até marmanjo que passou boa parte do show gritando “Casa comigo Lucy Liu!”.
Faz sentido o clamor do ianque. Em uma hora e meia de show a voz rouca e forte de Lucinda passeou entre blues, rock e até country,com elegância e paixão. Cruzada entre dois ótimos guitarristas, baixo e a bateria de seu grupo acompanhante, Buick 6 , a moça fez discretamente um dos grandes shows do Bonnaroo 2009. E deixa a gente sonhando com um show desses no Brasil.”
