Wilco

Wilco

Sábado é o filé mignon de todos os festivais. Mas no Bonnaroo a escalação exagerou na quantidade de boas atrações para o principal dia do evento. Mars Volta fez show bom, The Decemberists fez o show mais bonito, Nine Inch Nails e Ben Harper fecharam a noite com estilo, mas a estrela do dia estava com Wilco e Bon Iver, que fizeram as melhores apresentações da jornada. The Decemberists tocaram no final de tarde na tenda coberta. Apresentaram o disco novo, “Hazards of Love” (candidatíssimo a melhor do ano, escrevam), como este manda, na seqüência, já que é quase uma ópera rock de celebração ao amor. E encantaram. Na obra mais ousada do vocalista, guitarrista e líder Colin Meloy, mestre na arte de criar gemas pop, a banda entrou vestida de terno enquanto a backing vocal cantava com um véu a lhe cobrir braços e cabeça para a apresentação quase teatral do disco. No outro palco, o Mars Volta comprovava que é dono do show mais vigoroso da terra. A banda é conhecida pelas longas improvisações progressivas, qual jazz tocado como hardcore em um bar no inferno. Promovem a destruição, o caos, mas este é milimetricamente planejado, dada a habilidade instrumental dos músicos. O show mistura energia e fúria sonora a física – o vocalista Cedric Bixler-Zavala e o guitarrista Omar Rodriguez-Lopez se contorcem, se atiram no chão, enquanto o baterista destrói o kit com o baixo a acompanhar.

Mas o dia era de Bon Iver, que se apresentou antes dos Decemberists no mesmo palco. Bon Iver, na verdade, é o nome do projeto de Justin Vernon, que passou três meses gelados em uma cabana no Estado do Wisconsin e pariu aquele que foi considerado por muitas publicações o melhor álbum de 2008, “For Emma”. Da experiência de composição, tirou o nome que significa Inverno Bom, em francês. O disco é folk de delicadeza e beleza absolutas. Mas no palco Vernon se transforma, e não são poucas as vezes que transforma o folk em massa caótica de distorção, fazendo lembrar os melhores momentos de Neil Young quando está com a banda Crazy Horse. Fosse uma resenha do festival de Cannes diria que o público aplaudiu de pé por minutos após a apresentação, já que foi o que aconteceu após Bon Iver deixar o palco.

Logo depois, no palco principal, mesmo trazendo a reboque o pior disco da carreira, o Wilco comprovou que é das melhores bandas em atividade no planeta. Fez um show que tangenciou a perfeição – a qualidade de som era tão boa e a banda tão azeitada que parecia estar rodando um disco ao vivo do palco. Um sexteto que consegue criar duelos de três guitarras em músicas como “Handshake Love” e “I´m Trying to Break Your Heart” e fazer uma apresentação bonita até dizer chega.